Ah, Diniz, cada coisa que acontece nessa vida...
Estava eu contente e feliz, segunda de noite, depois da minha visita ao Rio Branco, me sentido como que compactuada com o meu passado. Estava na minha casa confortável e amável no início da noite... quando meu pai chegava em casa um meliante desprezível, o coitado, meteu um revólver na cabeça dele e foram entrando na minha casa. Eu ouvia música alto, o novo CD da Mônica Salmaso (que aliás, é excelente, você ouviu?)... então não percebi nada. Meu irmão bateu na porta do meu quarto, disse que era o tal do assalto, com um revólver nas costas e o olhar gelado.
Veja só, humanidade estúpida, que inventa o dinheiro e um objeto estúpido para disputá-lo... um objeto estúpido que mata. Nos trouxeram para o escritório do meu pai, mandaram eu, ele e meu irmão deitarmos no chão, barriga pra baixo, cara pra parede, minha mãe deixaram ficar sentada no sofá. Eles não eram... digamos muito sádicos, ainda bem. Eu tive muito medo. Medo de que matassem toda a minha vida que estava nessa sala, donde sobrou um computador do qual te escrevo.
Ficaram aqui quase duas horas. Minha cabeça funcionava tão lucidamente, que eu contava as batidas do relógio da sala, pra saber quanto tempo eles estavam aqui. E estava calma, conversando com eles. Amarraram a gente enquanto eu me enchia de felicidade, sabendo que estava acabando. Uma das nossas sortes foi a crendice popular, acharam que a gente era "macumbeiro", talvez pelas máscaras africanas, pelos orixás em madeira, pelos colares africanos da minha mãe. Falavam sussurando, às vezes se exaltavam. Diziam que tinham ódio, que iam matar a gente, um dos porcos me chamava de "moça da voz bonita", o porco. Perguntavam pelo cofre, no qual estariam "os ouro, os dólar, os pó". "Casa de professor lá tem dessas coisas, moço?".
Eu nunca tive tanto medo em toda a minha vida. Espero nunca ter tanto medo de novo. É até melodramático pensar agora que quando terminou ficamos contentes de estarmos vivos. E isso foi tudo. Quando terminou eu comecei a chorar. Hoje parei de chorar. Primeiro chorei de alívio, mais tarde chorei de susto, depois do choque, ontem chorei com raiva, me senti humilhada, degradada, suja, e finalmente chorei de outros alívios... e hoje, por enquanto estou sem lágrimas. Até ironias já fiz: que se deus existe ou não eu não sei, mas se existe, ele não é humano, é divino, logo não compartilha das mesmas categorias de humanidade que eu.
Levaram muita coisa. Quase me deixaram com a paranóia contemporânea, mas não... eu continuo não acreditando que a polícia é melhor do que os bandidos, continuo sabendo que George Bush não é da minha laia, não repasso e-mails que avisam dos últimos terríveis vírus de computador, não vou instalar um botão dentro da minha casa, muito menos no meu cérebro...
E claro, fico muito mais indignada com esse mundo. Mas, ao mesmo tempo, pela primeira vez na vida perdi a frieza na qual a gente vive... assisto ao jornal e realmente me doem todos os mortos desse mundo violento, sujo, degradado.
De alguma maneira me sinto mais livre do que nunca. E vou procurando alguma paz... A polícia acabou de achar um dos carros daqui de casa em Torre de Pedra, cidadezinha perto da sua Porangaba. Estavam contentíssimos, os policiais. É o primeiro caso da delegacia desde que ela abriu,... Digo lá: de alguma forma, mesmo alegórica, as coisas renascem.
Combinemos este encontro: fiquei viva pra essas coisas, esses seres humanos como você... nos quais eu ainda me liberto.
Um beijo enorme, Júlia.
Escrito por Senhorita H. às 19h14
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